O que podemos aprender com a arquitetura dos povos originários
- Beró Arquitetura
- 8 de abr. de 2022
- 4 min de leitura
Em uma entrevista, Emicida fala sobre a tecnologia indígena: 'muito das leituras dos povos originários iriam nos proteger de uma série de coisas e de muitas tragédias que enfrentamos todos os anos'. A fala dele teve um viés social, focado em enchentes e desabamentos.
Quando ouvi essa entrevista, tive um estalo que pensando agora aqui é tão, mas tão óbvio...vou compartilhar uma história pra vocês acompanharem o raciocínio.
Em 2020 fiz uma viagem ao Amazonas e foi lá que tive uma das experiências mais incríveis da minha vida. Pessoas próximas a mim sabem da relação da minha família com os povos originários, por isso a oportunidade. Conheci a aldeia do povo Jamamadi, localizada no sudeste do estado (sim, isso é bem doido...foram 5 dias de barco para chegar lá etc etc. Mas vou tentar focar na arquitetura hoje!!).
Fui preparada para desenhar. Queria entender os métodos construtivos daquele povo. Queria entender como eles usam a natureza a seu favor absolutamente o tempo inteiro, com respeito. Entendi como em um calor úmido, típico da floresta amazônica, ao entrar nas casas (na língua Jamamadi, Usá), a temperatura era amena e agradável. A arquitetura é regida pelo entendimento da chuva e do rio e como as cheias afetam a região.
Os materiais utilizados na construção das casas são em grande maioria, locais e obviamente, naturais.
O layout interno faz muito sentido quando entendemos os hábitos da comunidade.
A proteção em relação aos perigos da natureza (como onças por exemplo) também faz parte desse projeto.
Quando eu registrei tudo isso, tive a intenção de usar como ferramenta de estudo, mas não sabia muito bem como. Foi então, nessa fala de Emicida, que eu pensei em trazer meu objeto de estudo para projetos atuais.
Aliado a isso, esse ano encontrei dois amigos engenheiros, os dois com foco em bio construção, o que fortaleceu esse pensamento (gracias Amanda e Pablo, pelas ricas conversas!):
Projetos que não só respeitem a natureza, mas que se integrem a ela e usem as forças locais a seu favor. Parece muito complexo e distante, mas as soluções aplicadas pelos Jamamadis são brilhantemente simples (e muitas vezes estudadas na academia, mas não aplicadas no mercado imobiliário). Essas questões climáticas e bioenergéticas são pautas de estudos muito aprofundados em países que já buscam esse processo de mudança e respeito a natureza.
E agora eu vou falar quais são e vocês vão pensar 'ok, mas isso não era óbvio?' e a resposta é: sim...mas não é aplicada como poderia!
O telhado das casas dos Jamamadis são de palha, uma trama perfeita e bem amarrada que isola o calor e protege da chuva. Funciona realmente como um isolamento térmico poderoso. Contudo, o trabalho é grande e ao encontrarem telhas de zinco na cidade, pensaram que era um facilitador. Essas casas eram insuportavelmente quentes quando comparadas as outras, tradicionais.
Não gente, não quero construir telhados de palha por aqui, até porque o Brasil é imenso e com uma variação climática que exige estudos particulares. Mas a escolha da melhor cobertura para a região do projeto é fator decisivo para melhor conforto ambiental. = menos ar condicionado.
A ventilação cruzada é o mínimo que espero de qualquer profissional da arquitetura, mas vale trazer isso para quem não é arquiteto também: valorizar corredores de ar (até mesmo em apartamentos, através de mobiliário por exemplo). E isso parte inclusive da estrutura do telhado escolhido. Em regiões mais quentes como norte e nordeste temos a possibilidade de usar ferramentas mais permeáveis que possibilitem ventilação constante, por exemplo. Já no centro-sul, é fundamental trabalhar em cima da captação de calor no inverno e liberação dele no verão.
No caso da aldeia que visitei, como falei antes sobre as cheias e animais, as casas são sobre palafitas (baixas, de aproximadamente 1 metro de altura) e isso impede que a água invada a casa. Essa prática que é comum nessas regiões por muitas e muitas vezes é ignorada no sul, mesmo que as comunidades sejam localizadas em regiões de cheia. Cito isso relacionando a ideia de que essas tecnologias poderiam prevenir muitas tragédias recorrentes.
A arquitetura deve respeitar o terreno, quando nos referimos a topografia, vegetação, incidência solar, clima, vento. Aprendemos isso na faculdade...e acho que por muitas vezes podemos pensar que nossos clientes não buscam uma arquitetura com esse pensamento e sim algo mais comercial...mas como os clientes que nunca estudaram isso vão poder decidir se não tem acesso a esse tipo de informação?! Cada vez mais acredito que é possível sim incluir esses conceitos de uma maneira viável dentro de projetos contemporâneos.
Diz ai o que vocês pensam sobre isso! Se quiserem trocar mais ideia sobre qualquer assunto relacionado a arquitetura indígena, arquitetura sustentável, métodos e aplicações na vida real da construção civil, me chama que eu amo falar sobre isso.
Pra quem quiser, aqui a entrevista do Emicida, ele fala sobre isso aos 00:50 min.
Fotos tiradas por mim em janeiro de 2020
conexão do espaço de dormir com a cozinha através de uma 'passarela'
eu :)
a cobertura da casa vista por fora
a parte da frente é o espaço de estar, enquanto atrás ficam os quartos
umidade e calor, muitos animais: pilotis solucionam várias questões
piso de madeira (perfeita, maravilhosa, incrível que espero que a gente nunca use em projeto nenhum porque tchau floresta)
a cobertura da casa vista por dentro
Usá!
Uma casa ainda em construção já com essa telha de zinco que é péssima, cancerígena e absurdamente quente. Percebam que os pilotis também são mais baixos.
Beijos!!





















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